CAIPIRAPETINGUENSE
Amélia Luz
Criada na roça
Aprendi toda prosa
A contar os “causos”,
Das terras de Minas.
Conheço Folia de Reis
Ao palhaço dou a vez
Na troca de versos...
“Tem, tem, tem moçada boa!”
Já bati Mineiro Pau
Brinquei de Lobo Mau
Dancei Boi Pintadinho,
Andei de Mulinha e não é à toa
Que corri do Jaraguá!
Fui Boneca do Tutinha
Senti-me a rainha
Singela menina
Entre confetes e serpentinas!
Participei de quadrilhas
Pulei fogueira de São João,
Comi paçoca, tomei quentão,
Fiz simpatia pro santo casamenteiro,
Tentando encontrar um parceiro...
Subi no pau-de-sebo
Cantei modinha de roda no terreiro
Passei anel, brinquei de esconde-esconde,
Fui ao circo de cavalinhos
Tentando segurar a meninice...
Tenho de fato, um cheiro de mato,
Conheço o verde da campina
Recordo o Valão do Encantado, onde nasci,
Que muito ainda me fascina...
Guardo lembranças das noites enluaradas,
Do sereno frio das madrugadas,
Da orquestra de sapos no brejo,
Cantando canções de ninar.
Sou caipirapetinguense na fala,
Na simplicidade que em mim exala,
Quanto bate forte no meu peito
O meu coração de mineiro perfeito!
Toco viola, faço serenata,
Minha alma campeia na mata
Debaixo do luar de prata...
Se abro a boca “tem jeito não, uai”!
Tenho o sotaque diferente
Arrastado, cantarolado,
Que é a cara da minha gente.
Vou a procissão do Divino
Ao leilão de prendas de Santana,
Faço promessas na Santa Semana,
Assisto à Via Crúcis na avenida
Ouço o sermão do Encontro
Nas palavras do vigário.
Nas retretas da Vinte e Sete
Viajo nas valsas e nos dobrados.
Assim, saio pela praça da matriz,
Dando voltas no jardim
Costume do nosso povo
Encontrando minha raiz...
Num modo estranho
Nesta vida passageira
Tenho ranço de Minas,
Coração nascido entre montanhas
Nas entranhas a alegria sem fronteiras,
De poder gritar com vigor,
Do alto das escarpas do Caparaó,
Sou caipirapetinguense,
Sou mineira!!!

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