Como tudo começou, e continua resistindo à
passagem do tempo, há mais de 60 anos, e vai continuar até quando nos for
permitido...
Foi assim que começou o que é o namoro de toda uma vida...
A
receita é simples: RESPEITO, COMPREENSÃO, DOAÇÃO, AMIZADE, MUITO AMOR E CARINHO
E SINCERIDADE TOTAL...
Ósculos e amplexos,
Marcial
NAMORO DE TODA
UMA VIDA
Marcial Salaverry
Tudo começou em um baile de formatura, dia
27/12/1958, no Clube Transatlântico em São Paulo.
Fôra a essa baile, muito a
contragosto, apenas e tão somente para acompanhar um amigo, com a idéia de ficar
algumas poucas horas, e me retirar. Estava cansado, pois chegara de viagem.
Aborrecia-me naquele baile, tudo me parecia entediante. Estava disposto a
afogar meu tédio em alguns Cuba-Libre.
De repente, vi aquela jovem loura,
alta, esbelta... Com seu vestido rosa, seus lindos olhos azuis, seu sorriso
angelical, compunha a mais linda figura feminina que jamais vira. Foi a primeira
vez que senti aquele bater forte do coração, e naquele momento, pareceu-me ver
um anjo descendo do céu. Pareceu-me que o salão se esvaziara, e os únicos que lá
restavam, eram ela e eu. Nunca uma garota me houvera despertado tal impressão.
Impressionou-me tanto, que comentei em voz alta com meu amigo:" Caramba... com
essa eu me casaria amanhã mesmo." Quase cumpri a palavra... Casamo-nos alguns
meses depois.
Há que se notar que sempre tivera extensa lista de
namoradas, mas nunca houvera sentido a emoção do amor. Mas aquela moça, ela
superava a todas. Jamais havia sentido algo parecido.
A música recomeçou.
Despertei de meu enlevo, e tirei-a para dançar. Ao rodopiarmos pelo salão ao som
de Fascinação, decretei que aquela seria a música de minha vida, e que aquela
linda jovem iria acompanhar-me para sempre. Seu doce sorriso cativou-me ao
primeiro momento. A primeira perguinta que me fez, foi:"Voce fuma?" Quando falei
que não, e pelo contrário, tinha ojeriza pelo cigarro, ela disse: "Que bom..."
De imediato, tratei de assegurar que o resto da noite, ela só dançaria comigo
(como se fazia naquela época). A princípio relutante, terminou por concordar, e
assim fizemos par constante o resto do baile.
Meu amigo, a quem dissera
que iria embora cedo, quis se retirar. Disse-lhe que se fosse. Eu ficaria.
Garanti que havia encontrado a garota de minha vida.
Ele debochou, lembrando
que eu já havia me apaixonado um sem número de vezes. Rebati dizendo que desta
vez não estava apaixonado, mas sim, que havia encontrado o Amor de minha vida.
Que a paixão é fugaz, mas o amor é perene. Sempre fui um romantico incurável, em
busca do amor...E encontrei...
Ao terminar o baile, quis acompanhá-la até
sua casa, não me permitiu, pois afinal, acabáramos de nos conhecer. Eram outros
tempos...
Marcamos encontro para o dia seguinte, para ir ao cinema. Lembro-me
ainda, fomos ao Cine Marrocos, assistir Sayonara. Cometi a audácia de beijar-lhe
a mão. Por pouco não se levantou a saiu do cinema. Imaginem só. Beijar a mão
logo no primeiro encontro. Eram outros tempos...
Foi dessa maneira que
tudo começou. Foi uma mudança radical em minha vida. Sempre fôra dado a
aventuras, era boêmio por excelência. Houvera abandonado os estudos, para ter
mais tempo, como dizia, para as garotas, mas esse encontro contudo, determinou
novos rumos, afinal havia encontrado o amor...
Meus familiares apenas
sorriam, acreditando ser mais uma de minhas loucuras. Ninguém acreditava quando
eu dizia que o que havia sentido era para valer. Alguma coisa me dizia que fôra
realmente "fisgado".
Começamos o namoro, como convinha na época, na sala
de visitas de sua casa, sempre com a presença de algum familiar, "para manter o
respeito". Quando saíamos, nunca era a sós. Ao cinema podíamos ir sem companhia,
mas com hora marcada para voltar para casa. A bailes, nem pensar que poderíamos
ir a sós. Sempre alguém "para segurar a vela". Eu sempre estivera habituado a
sair com as chamadas "garotas fáceis", de repente sair com uma "de família"
(essa era a diferenciação na época), era complicado, mas houvera decidido mudar
de vida e assim fiz. O amor realmente é lindo... Rompi completamente com tudo
que me ligava à vida noturna, às farras, às rodas de amigos. Ninguém acreditava
no que estava acontecendo. Nem eu...
Devido uma série da circunstâncias,
entre as quais uma briga familiar, decidimos antecipar nossos planos de
casamento. Fiz com que, tanto ela, quanto sua família, entendessem que
deveríamos nos casar logo, pois, como saíra de casa e estava morando em uma
pensão, sempre havia o perigo de eu ter uma recaída, e começando a sair
novamente, voltar para a boemia. Claro que houve resistência por parte da
família. Todos acreditavam que estávamos sendo precipitados. Nada justificava a
pressa.
Ainda como agravante, não tínhamos uma base financeira sólida para
encarar uma vida conjugal, e mesmo assim decidimos. Resolvido o detalhe,
marcamos a data do casamento.
Havia ainda outro problema. Uma
ex-namorada grávida, ameaçando fazer escândalo na igreja. Felizmente havia
contado tudo sobre minha vida anterior. Assim a ameaça da outra não surtiu
efeito. Por fatos como esse, ninguém em minha família acreditava que o
casamento durasse muito tempo, duvidavam da seriedade de meus propósitos. Meus
irmãos fizeram um bolo esportivo, para ver quem acertava quanto tempo duraria o
casamento. O mais otimista, palpitou 1 ano. Errou por pouco, pois já lá vão
quase 61 anos.
Nossa vida é uma prova cabal da força do amor. Nestes 61
anos, cujo inicio foi contado acima, claro que tudo não foi um eterno mar de
rosas, pois tivemos toda a sorte possível de problemas que poderiam ocorrer a um
casal. Tivéramos tipo de vida completamente diferente. As engrenagens foram se
ajustando a pouco e pouco. Cada qual cedeu em algo, e fomos nos acertando.
Dificuldades financeiras foram uma constante, problemas de saúde com filhos nos
custaram uma casa. Sempre um apoiava o outro. Quando um começava a desanimar, o
outro o puxava pela mão do fundo do buraco, trazendo-o para a luz. Quando
começávamos ambos a desanimar, apoiávamo-nos em nosso amor, e conseguíamos
recuperar o ânimo, principalmente com a ajuda de nossa Fé em Deus, sempre
inabalável. E como Ele sempre nos ajudou...
Um amor construído à base de muito respeito, muito
diálogo, muito carinho, muito companheirismo, e, principalmente de uma amizade
inquebrantável.
Acima de tudo, sempre fomos amigos um do outro. Essa é a
base uma união completa, que já dura há 61 anos, e foi essa amizade que nos
ajudou a suportar, primeiro uma mudança de cidade devido saúde de nossa filha.
Viemos para Santos, sem apoio, sem base, só confiando em nosso amor.
Depois,
devido a uma fase difícil que estávamos atravessando, decidimos tentar a sorte
na África. Coisa de loucos? Claro... mas de loucos com uma fé inquebrantável no
amor, que nos permitiria superar tudo, sempre com a ajuda de nosso
Amigão...
Não posso dizer que nosso amor é o mesmo de quando começamos.
Na verdade, agora é muito maior. Cresceu quando superamos nossas crises
financeiras. Cresceu quando superamos nossas divergências pessoais. Cresceu
quando superamos nossos problemas de saúde. Cresceu quando superamos as
dificuldades de relacionamento que uma longa convivência traz. Hoje contudo,
quando olhamos para trás, e vemos o longo caminho que percorremos juntos,
agradecemos ao Amigão o fato de nos colocado no mesmo caminho, que nos levou
àquele célebre e inesquecível baile do Clube Transatlântico, e que nos fez
conhecer de fato, o que é a força do amor. Posso dizer com segurança, que nunca
fomos apaixonados, nunca estivemos perdidamente apaixonados um pelo outro. Não é
a paixão que determina a felicidade de uma união, mas sim o AMOR, a AMIZADE, o
RESPEITO, o DIÁLOGO...
O amor que nos permite hoje, como sempre, desde o
primeiro dia, olharmo-nos um dentro dos olhos do outro e dizer com absoluta
segurança EU AMO VOCÊ, algo que nos permite fazer de cada dia, sempre UM LINDO
DIA, desde a manhã do dia 28/12/1958 até hoje e sempre...
MARCIAL
SALAVERRY