terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

 


PORTUGUÊS/AFRICANÊS – UM MUNDO SEM FRONTEIRAS.

Amélia Luz

                      Minha língua, nascida no Lácio, é uma colcha de retalhos. Do Português continental de Camões, Eça e Pessoa trazido pelos colonizadores ao que hoje falamos, muitos acréscimos foram feitos o que podemos observar na influência indígena, africana e na influência dos imigrantes de várias origens, tempos depois.

                        O texto que escrevo em “português-africanês” nos surpreende pela riqueza dos vocábulos que a África nos legou pelo falar dos escravos. Com o passaporte na mão e reunindo palavras pude escrever um pequeno conto, numa pequena mostra que se segue. Vamos seguir viagem.                                    

 

 

Título: UMA VIAGEM AO MUNDO AFRICANÊS - “MUVUCA” NA FAZENDA.

Amélia Luz.

 

                          Ouviu-se uma “zoeira” estranha, uma “bagunça” que vinha da vizinhança da fazenda.  “Encabulada” a patroa chamou a “babá” que na cadeira de balanço, no canto da sala, fazendo o seu “caçula” dormir, “cochilando” sonolento ao som do “bamberê”. A patroa foi até a janela e perguntou:

                         - Sabe o que está acontecendo?

                          Ela se levantou, ajeitou o turbante e disse:

                          -  É roda de “capoeira” na casa da “Iaiá”, “congada”, cuíca”, “zambumba”, “berimbau”, “agogô” e “afoxé”, uma animação só. Todos se divertem, bebem “birita”, “aluá”, “garapa” comem “bobó” e a “bruaca” está cheia de iguarias, “farofa”, “pamonha”, “inhame”, “canjica”, “moqueca” e “mocotó” com fartura.

                       A Sinhá logo se interessou em ir até o “muquifo” da velha “mucama” “Iaiá” para ver de perto o que acontecia. O patrão viajara a negócios com o “capanga” “cafuso” para compra da boiada. A fazenda estava sob suas ordens e ela temia uma “fuzarca”, um “fuzuê” na ausência do marido que longe fazia os seus “trambiques”.

                       Apressou o passo, colocou o xale e o chapéu saindo com a “babá” para conferir o porquê de tanta “quizumba”. Atravessou o terreiro e chegou ao local. O “lundu” estava animado. Todos dançavam, as mulheres requebravam e cantavam.

                         Um moço “sarará” dançava com uma “quenga” em requebros sensuais.                                   Como uma “songamonga” a pobre patroa entrou no salão admirada.

                      “Iaiá” vestida de renda branca, elegante, esguia, cheia de “balangandãs” e “miçangas” veio saudar a patroa sorrindo, com alvos dentes que realçavam na pele negra, honrada com a nobre presença.

                        A Sinhá quis “bancar” o papel de educada correspondendo ao cumprimento com simpatia. Sentou-se com a “babá” num banco de madeira bruta. Logo apareceu um “moleque” oferecendo “quindim” e “mungunzá” que ela saboreou calada, a “banzar”.

                       Um homem “cumba”, alto, com “quizila” com o terrereiro “matuto” começou com uma “quizumba” feia, uma “lambança” por causa de uma “mutreta” entre eles.

                  “Serelepe” a menina “tagarela” disse que eles haviam bebido muito. Descontrolados discutiam em algazarra aos gritos e ofensas caíram na poeira brigando, soco a soco, um “banzé”.

                   Outro homem “xendengue”, “bambambã” em lutas que mal parecia um “mondongo”, amontou-se com eles no chão acabando com a “pendenga”. Lutou com destreza de “capoeirista” treinado e acabou com a briga expulsando os anarquistas do salão que saíram “perrengues”. Estavam numa “pindaíba” e “Iaiá” deu-lhes uma pequena “bufunfa” como agrado para que fossem embora.  Depois da “tunda” saíram estrada à fora, cambaleando. Um “cazumbá” cansado fazia “cafuné” na cabeça da mulher que ria com o “cachimbo” torto, do lado da boca.

                     A Sinhá espantou as moscas com o leque, olhando firme para a “babá” como se pedisse socorro. A “babá” pensou em silêncio que aquilo mais parecia uma “urucubaca” para assustar a sofisticada patroa, não acostumada com aqueles hábitos.

                 - “Saravá, murmurou, “zombando” do acontecido. Com “xodó”, protegeu a patroa que “amuada” queria mesmo era voltar para a Casa Grande.

                    “Iaiá” pediu desculpas e se despediu dela:

                     - “Axé”, “axé”! “Ogum que a proteja. Depois que a patroa saiu “zanzando” pelo quintal o “zumzum” foi grande.  Muita conversa e “fofoca” no salão, agitavam.

                       Cheia de “zanga” “Iaiá” protestou brava com a “patota” pedindo ordem no recinto por não gostar de “candonga”. Todos obedeceram por terem por ela muito respeito. Era mãe de santo e “Candomblé” é coisa séria para “Babalorixá”.

                       Controlado, o “furdúncio” continuou a noite inteira: lua cheia, cantoria, “ebó”, oferendas e bebedices.

                        A “babá” ria “banguela” do “chilique” da patroa procurando acalmá-la. A “lenga-lenga” da “babá” continuava tentando explicar, com o seu interminável “lero-lero” as festas do “congado” tão animadas com “bamberê”, “afoxé” e “batuques”. “Borocoxo” acabou dormindo cansada.

                      Tremendo de medo a Sinhá correu para o banheiro tomando um banho de cheiro, trocando toda a roupa. Pegou o véu e o terço foi até o oratório da fazenda rezando para o Senhor do Bonfim com muita devoção.

                         Enquanto isso, o “nenê” dormia tranquilo em seu berço, sonhando com o “quibungo”. A festa estranha fora para ela uma “muxinga” que nunca será esquecida.                             Devota, no domingo foi à missa e confessou-se com o Padre Amaro contando o local onde estivera por inocência, suplicando o seu perdão. Depois da penitência cumprida veio a devoção na hóstia santa da comunhão para a sua tranquilidade de cristã, participante fiel da fé católica por tradição.

                      Nesta viagem que fiz ao mundo africanês percebo quantas mãos costuraram esse texto, desde a África e dos navios negreiros até o Brasil. Muitos retalhos de seda ou zuarte expostos de sol a sol, de boca em boca, de história em história. Sobrou o nosso idioma enriquecido, cheio de tantas curiosidades, celebrando a fusão das raças na roda da vida, na riqueza dos vocábulos que aprendemos desde o balbucio às rezas das benzedeiras com os seus “patuás” com cheiro de “mocambo”, essências que herdamos “embalados” por braços negros, cheios de bondade sofridos pelos açoites da escravidão o que vem provar que muita coisa da nossa cultura vem da Mãe-África.

                    Uma viagem a um mundo diferente de linguagem oriunda das tribos d’África que trazemos ocultas nas almas sensíveis mesmo tendo olhos azuis e pele alva somos filhos das nossas mães de leite ou das nossas mães secas. Somos irmãos dos meninos negros que nos ensinaram as peraltices da infância ou das meninas que brincaram conosco de perna de pau ou de boneca de espiga de milho. Cantarolamos canções que saíram dos lábios doces e carnudos das nossas babás ou repetimos histórias fantásticas contadas por elas para que adormecêssemos tranquilos. Muitos encantos em contos que nem as mil e uma noites dariam para contar. Nem a “Patroinha Sinhá” e nem Iaiá poderiam na verdade avaliar a grandeza desta viagem fantástica que fiz, cheia de grandes mistérios e de muita beleza.

                     

 

 

 

 


 

Avessos e Direitos da Emília.

Amélia Luz

 

 

Saiu de duas mãos negras, quase escravas,

e de um sorriso meigo num rosto de África...

Alguns trapos coloridos

os cabelos em algodão negro desfiado

e macela perfumada para rechear.

Assim nasceu a extravagante Emília,

muda, olhos arregalados de retrós!

Uma dose de pílula falante desembesta a falar,

autoritária, arrogante e birrenta!

Malcriada e teimosa é egoísta,

muito esperta nas suas estripulias...

Tirana e interesseira observa tudo

tão pequenina como toda boneca de pano.

Anda pelos arredores à cata de novidades

carregando a sua canastra, (seu tesouro),

cheia de bugigangas que vai recolhendo

quando nas suas muitas atrapalhadas.

Não se sabe se é gente ou boneca,

levada da breca é temida por todos

vivendo a fantasia da sua criação.

Figurinha surreal centraliza as atenções

esbanjando suas asneiras com convicção!

Suas histórias são cheias de mistérios

que vão além da imaginação...

Assim, vive a liberdade ao sabor da sorte,

Recriando a alegria da vida rural.

 

Conto Infantil: A Alface Orgulhosa.

A horta estava plantada de novo. Alfaces, couves, repolhos, rabanetes e
beterrabas cresciam juntos, em canteiros vizinhos. Seu Bertolino aguava, adubava, cuidava
com carinho para que todos pudessem crescer sadios. O tempo passou e legumes e
hortaliças já estavam no ponto de colheita. Foi quando uma alface atrevida virou-se para o
repolho e dizendo;

Oh, Repolho Cabeça Dura, Você é mesmo um trate. Folhas duras, de um
verde tão desbotado, sempre fechado, nem se abre nem para conversar e ver
a luz do sol!

O repolho sentiu e calou pensando na cruel ofensa da alface siri gaita. Ficou
triste e pensativo. Afinal a natureza tem que ser respeitada!

A alface continuou:

Sabe, seu Cabeça Dura, o meu sonho é fazer parte de uma colorida salada na
mesa de um restaurante de luxo. E você? Para que serve? Só para aqueles
charutos sem graça ...

Uma tarde tenebrosa o céu escureceu repentinamente, prometendo chuvas. E
foi um tremendo temporal naquela noite. A horta ficou alagada e as hortaliças destruí das
pelo vento.

Na manhã seguinte, que lástima! A orgulhosa alface estava com as suas
folhas perfuradas, profundamente ferida pela, força do vento. Soluçava agonizando
pensando no seu sonho de ser colhida para ser parte importante de uma salada. Foi quando
o repolho lá do seu canto, enfim falou:

Viu Dona Alface, não vale a pena desdenhar dos outros. Eu sou feio e tenho
cabeça dura mas aqui estou para ser colhido e aproveitado. E você? Sua
petulante, nem para a comida dos porcos teria serventia. Se pudesse ver a
sua cara ... Parece até que chegou de um combate de guerra!

Então, chegaram num cesto as beterrabas, as cenouras, os rabanetes, os

Chuchus, e também o Repolho Cabaça Dura para serem aproveitados.

Oh, Dona Alface, já estou indo com o pessoal. Vamos para uma escola cheia
de crianças fazer parte de uma Sopa Juliana! E você, cara amiga, vê se dá
um jeito de melhorar a sua aparência, senão a enxada malvada acabará por
destruí-a. Quem sabe, aí sozinha aprende que não se deve criticar dos
outros?

E a alface orgulhosa ficou só, triste e arrependida, pensando na fragilidade das
suas folhas tão belas. Não prestava mesmo para nada. A ser para ser atirada às galinhas.

Horas depois, Seu Bertolino encontrou a alface chorando parou e deu atenção
às suas queixas. Depois de ouvir a sua história, afofou de novo a sua terra, tirou suas folhas
destruídas, escorou-a com estacas de bambu para sustento do seu corpo danificado

Sozinha, muito abalada, a alface pensou na sua atitude para com o repolho e pensou que, mesmo feio e caladão, Se ele estivesse ali a seu lado, não se sentiria assim tão ferida e solitária.

Os dias passaram. O sol voltou a brilhar e a alface por milagre se recuperou.

                         O bombardeio do vento. Na semana seguinte foi colhida e levada num cesto, sem saber
para onde. E, pela força do destino foi parar na mesa da escola onde estavam os seus
companheiros. Chegando lá, foi servida naquela refeição tão variada, como salada, acompanhada de
outros pratos, inclusive da Sopa Juliana. O repolho aos gritos chamava:

- Oh, companheira alface, está nos reconhecendo? Que bom que você também veio. Estávamos na geladeira preocupados, sem saber o que tinha acontecido
com as suas belas folhas. Agora estamos juntos outra vez, na nobre missão de alimentar as crianças desta escola. E lembre-se Dona Alface, cada um tem o seu valor, eu sou Cabeça Dura mas tenho um coração de manteiga que sabe amar e respeitar os meus semelhante.

      Foi quando o tomate falou:

Essas hortaliças são mesmo engraçadas ... O pior sou eu, que apesar de ser uma fruta tenho que aguentar isso aqui, vermelhinho de raiva! Fervendo nesse caldeirão de sopa! Esse mundo tem cada uma.

Moral - Não devemos desdenhar, nem rir do mal dos outros porque o nosso pode estar a caminho.

 

 


 

CAIPIRAPETINGUENSE

 

 

Amélia Luz

 

 

Criada na roça

Aprendi toda prosa

A contar os “causos”,

Das terras de Minas.

Conheço Folia de Reis

Ao palhaço dou a vez

Na troca de versos...

“Tem, tem, tem moçada boa!”

Já bati Mineiro Pau

Brinquei de Lobo Mau

Dancei Boi Pintadinho,

Andei de Mulinha e não é à toa

Que corri do Jaraguá!

Fui Boneca do Tutinha

Senti-me a rainha

Singela menina

Entre confetes e serpentinas!

Participei de quadrilhas

Pulei fogueira de São João,

Comi paçoca, tomei quentão,

Fiz simpatia pro santo casamenteiro,

Tentando encontrar um parceiro...

Subi no pau-de-sebo

Cantei modinha de roda no terreiro

Passei anel, brinquei de esconde-esconde,

Fui ao circo de cavalinhos

Tentando segurar a meninice...

Tenho de fato, um cheiro de mato,

Conheço o verde da campina

Recordo o Valão do Encantado, onde nasci,

Que muito ainda me fascina...

Guardo lembranças das noites enluaradas,

Do sereno frio das madrugadas,

Da orquestra de sapos no brejo,

Cantando canções de ninar.

Sou caipirapetinguense na fala,

Na simplicidade que em mim exala,

Quanto bate forte no meu peito

O meu coração de mineiro perfeito!

Toco viola, faço serenata,

Minha alma campeia na mata

Debaixo do luar de prata...

Se abro a boca “tem jeito não, uai”!

Tenho o sotaque diferente

Arrastado, cantarolado,

Que é a cara da minha gente.

Vou a procissão do Divino

Ao leilão de prendas de Santana,

Faço promessas na Santa Semana,

Assisto à Via Crúcis na avenida

Ouço o sermão do Encontro

Nas palavras do vigário.

Nas retretas da Vinte e Sete

Viajo nas valsas e nos dobrados.

Assim, saio pela praça da matriz,

Dando voltas no jardim

Costume do nosso povo

Encontrando minha raiz...

Num modo estranho

Nesta vida passageira

Tenho ranço de Minas,

Coração nascido entre montanhas

Nas entranhas a alegria sem fronteiras,

De poder gritar com vigor,

Do alto das escarpas do Caparaó,

Sou caipirapetinguense,

Sou mineira!!!

 

O TREM DA ESPERANÇA

Amélia Luz – Pirapetinga/MG  AFL – Academia Ferroviária de Letras – Rio de Janeiro/RJ.

 

Ouço o apito alvissareiro trazendo novidades!

Na pequena estação perdida no verde

Reúnem-se as pessoas à espera do trem...

Corri até o último vagão sorrindo apressado,

era a minha moça menina, minha namorada,

que me apertava contra os seus seios macios.

Acariciando as nossas recordações

faço bater forte o coração que não se rendeu

e  que teima em permanecer sempre sonhador...

Entrelaçamos agora as nossas mãos rugosas,

ainda sou aquele moço trabalhador ferroviário

que ajudou a fazer a história entre o ontem e o hoje

com bilhetes, trilhos, bitolas, apitos e fumaça!

Estou no estribo, no sacolejar do vapor,

viajo destemido segurando os balaústres

saltando em movimento, aventura costumeira e arriscada!

Sou o motorneiro que conduzo com segurança

na habilidade das manobras maliciosas e precisas...

Guardei no baú o meu velho guarda-pó,

uma fuligem cai-me nos olhos que em lágrimas

continuam olhando os trilhos esquecidos no tempo...

A bilheteria está aberta e o Agente ainda espera...

Esquecer? Impossível! Impossível!


 

Minha Casa – Café da Manhã

Amélia Luz

 

Minha casa amarela, a mais bela,

Da rua a rainha porque era a minha!

Antiga, cofre de emoções guardadas

Em suas paredes de tantos risos,

Tantos prantos e também desencantos.

Tantos segredos onde entrei menina

E aqui estou envelhecida.

Bem cedo, passos de cetim

Transitavam inocentes pela cozinha.

Do canavial da fazenda o açúcar,

Neve no pote de vidro.

Do cafezal os grãos colhidos,

Secados no terreirão com rodos de pau

E por braços fortes de africanos.

A moenda, o velho moinho a refinar.

O pó, o coador, café cheirando,

Reanimando estimulando.

O leite do curral já fervido na louça.

A cada manhã o mesmo ritual!

- Wilmary de uniforme para a escola

Apressada sentava e saboreava a broa de milho,

O queijo fresco e os biscoitos fritos feitos por ela.

A cada manhã o mesmo ritual!

Aqueles passos misteriosos

Aquelas mãos abençoadas que serviam.

Preparavam a mesa com carinho

Despertando a família para um novo dia!

- A benção era de ordem obrigatória,

Tradição das terras de Minas.

- Deus te abençoe! Dizia.

Lá fora um sol nascente começava

A nos chamar para a lida.

Minha mãe, ali conosco, sempre presente,

Ativa aos nossos compromissos.

Minha casa amarela, a mais bela,

Onde entrei quase menina.

Foi o meu começo, o meu espaço

E também a minha cela,

Minha vida entre chegadas e idas.

Sempre a abrigar-nos segura.

Minha mãe, a nossa “estrela guia”

Que nunca esquecerei na percepção

Da realidade e do silêncio que sufoca,

Da distância hoje que nos separa para sempre.