Minha mãe (1903/1984)
DIA DE REIS
Carmo Vasconcelos
(À minha falecida mãe, nascida a 6 de Janeiro de 1903)
Num Dia de Reis, longínquo, mãe, nasceste!
Trazias inato o porte de rainha,
Mas não passaste de aia, e na bainha
Da realeza, na vida te moveste.
Do rei, senhor teu pai, ficaste escrava,
E da sua apelidada “mão de ferro”,
Pois duro era o castigo por leve erro,
E p’lo não beija-mão quando chegava.
Então, na mesa, o prato era voltado,
A relembrar às filhas esquecidas,
Que sem o beija-mão não há comidas,
E à permuta da ceia se fazia amado.
Mas fez-te forte a vida, sem carinhos,
Na altivez orgulhosa das raízes,
E não te sendo fáceis os caminhos,
Soubeste contorná-los sem deslizes.
Foste mulher e mãe, grande leoa!
E de ti, herdei a garra, a fortaleza;
Dos rectos sentimentos, a nobreza;
E a repulsa à mentira que atraiçoa!
Muito obrigada, mãe, por me gerares;
Plos nãos aos meus caprichos contrariados;
E, também, pelos mimos sonegados!
- Da minha construção, rijos pilares!
Mais grata te sou, mãe, por não temer,
Quer os dias sejam odres de fartura,
Quer sejam esvaziados de ventura...
E porque ao bem moldaste esta Mulher!
***
Lisboa/Portugal
6/Janº/2010

Querida, Carmo!!! Mãe é sempre a maior de todas as inspirações. Lindo e comovente texto. Aline
ResponderExcluirbelissimo texto .... pbéns amiga ...abraços
ResponderExcluirGrande Carmo! Seu poema me traz à memória os grandes textos de renomados poetas portugueses. Meus parábens.
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